segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

As montadoras de automóveis cometendo os mesmos erros que as fabricantes de motocicletas

Você pensa que problemas como aquele alegado de cavacos nas galerias de óleo do novo motor da harley-davidson falado na postagem de ontem é só "intriga da oposição"?

Acha que coisas como essas não acontecem na indústria? Engano seu.

Há muitos casos como esse registrados e documentados, e muitos outros que só ficaram sabendo as concessionárias e os donos que pagaram o mico... 

Se o problema realmente estiver acontecendo, a harley-davidson será apenas mais uma em uma longa lista.
Imagem e recall: https://motorbikewriter.com/honda-recalls-300s-engine-failure/

Não se preocupe, essa aí é a honda CB 300 vendida lá na Austrália, o motor é esfriado a água.

Recall em 2016 por travamento do motor devido a falha no controle de qualidade resultando em dano às bronzinas, rolamentos ou mancais... (Bearing pode ser traduzido como rolamento ou mancal, e bearing cap é bronzina, que às vezes é mencionada somente como bearing. O virabrequim usa mancais com bronzinas e rolamentos ou apenas rolamentos, dependendo do tipo do motor. Monocilíndricas costumam usar apenas rolamentos e motores com vários cilindros usam mancais de bronzinas. Provavelmente a CB 300 australiana usa rolamentos.)

Muito provavelmente falha de lubrificação devido a cavacos na galeria de óleo, porque se fosse outro problema dificilmente o motor sairia da fábrica — pifaria no teste por lá mesmo.

Essa praga de recalls por falhas extremamente graves em veículos novos das montadoras não ataca apenas as fabricantes de motos.

É verdade que nas motocicletas os usuários correm maior risco de acidentes graves potencialmente fatais.

Mas na indústria de automóveis as situações de grande risco à vida e mesmo mortes não faltam.

E a lista de exemplos notáveis também abunda. Nossa, infelizmente. 
Imagem e reportagem: http://www.usatoday.com/story/money/cars/2015/09/25/hyundai-recalls-sonata-engine-problem/72797502/

A hyundai dos EUA teve esse recall em 2015 de 470 mil carros com cavacos esquecidos dentro do bloco do motor antes da montagem. quase 100 mil por falha na luz do freio.

E em 2016 a concorrente coreana kia estava para receber uma ação judicial também nos States exigindo recall — exatamente pelo mesmo problema:
Imagem e reportagem: https://topclassactions.com/lawsuit-settlements/lawsuit-news/337085-kia-class-action-lawsuit-targets-engine-oil-defect/

A general motors também deu uma vistosa contribuição para evidenciar a gravidade do problema.

Você soube dos motores V8 de 8,3 litros dos novos chevrolet Corvette Z06 2015 estourando de rachar o bloco com menos de 1.500 km?


Imagine você no primeiro passeio com seu Corvette zero km, ainda amaciando o motor...

A 137 km/h — porque ainda está amaciando e você está pisando leve andando na velocidade máxima permitida naquela região do Texas — o motorzão de 659 hp explode. Faz BOOM-klank-klank-klank.

Olha que coisa linda... perda total do motor antes da primeira revisão por causa de um descuido escabroso na linha de produção:


Não fez o básico do básico...

Cavacos de usinagem não removidos do interior do bloco foram parar na galeria ou filtro de entrada da bomba de óleo e bloquearam a lubrificação das bronzinas — causando travamento do motor e risco de acidente. 

É o mesmo problema que tivemos notícia de estar acontecendo com os motores da nissan e kia... e possivelmente com os da honda e harley-davidson...

A reportagem mostra um aspecto pitoresco da maneira como as empresas tratam o assunto:

Conforme é relatado ali, a chevrolet diz que isso afetou menos de 1% dos 9.000 veículos produzidos.
E isso causou o estouro de 1 em cada 3 dos motores dos carros entregues aos clientes até a data da divulgação da solução do problema.

Eita conta que não fecha... depois de todos os 9 mil carros entregues, mantida a proporção, não seriam 33%?
E será que nos carros entregues restantes os problemas simplesmente ainda não haviam dado as caras?

Ou ocorreram de maneira menos danosa?

Afinal, quantos carros foram afetados de verdade?

Sem dúvida, o raciocínio de quem "explicou" a taxa de defeitos é difícil de entender.

Mas de qualquer forma, dizer que foi menos de 1% dos carros já entregues fica bem melhor na fita, né?
1% é um número irrisório, quase desprezível.

A menos que você esteja a 137 km/h lá no Texas e o motor do seu carro estoure espalhando óleo e fazendo você rodar na pista e dar de cara com um mercedão. Ou um Mack.

A mais que centenária gm começou com gente que já construía carros em 1899, foi oficializada como general motors entre 1908 e 1916 e agregou várias outras montadoras já antigas em 1930.

Essas montadoras unidas eram a Buick, Oldsmobile, Chevrolet, Cadillac, Oakland/Pontiac — anote esse nome — a canadense McLaughlin, a australiana Holden e a tradicionalíssima alemã Opel que ficaram abrigadas sob o guarda-chuva da maior das montadoras originais, a General Motors. Depois vieram outras.

A gm quebrou financeiramente em 2008 tropeçando nos problemas criados por ela mesma e "renasceu" em 2009 afirmando estar livre dos erros da antiga gestão.

Experiência de produção é o que não falta.

Apesar de tudo isso e talvez por causa desse rejuvenescimento pós-falência, nesta década a gm reincidiu em cometer os erros mais idiotas do mundo.

Não foi só o Corvette.

Teve também o caso das bielas que "escaparam do controle de qualidade" dos modelos Maliboom Malibu 2014 recém lançados na terra do seu não meu tio trump — e para o qual a gm não convocou recall.

Se três carros não apresentassem simultaneamente o problema nas mãos dos editores do blog especializado Car and Driver, ninguém ficava sabendo da história dos outros trinta e sabe lá quantos mais.

Essa maneira de lidar com os defeitos escondendo os fatos do público para evitar prejudicar as vendas — mesmo que sua divulgação pudesse evitar mortes — não é exclusividade da general motors.

É uma prática geral na indústria de carros, motos e outros produtos para uso público.

Mas acredite ou não, esses ainda não foram os casos mais patéticos da indústria.

Amanhã finalmente eu conto a incrível história do carro que pegava fogo porque saía de fábrica e das revisões de concessionária sem óleo suficiente para o bom funcionamento do motor.

Que nem uma certa moto que eu conheço. Né, Jezebel?

Um abraço,

Jeff

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Será que a harley-davidson vai pelo caminho das Indians?

Problemas de engenharia do produto como esses das motos da indian e quadriciclos da polaris das postagens anteriores não afetam somente esses fabricantes.

Ou melhor, não afetam somente os consumidores dos produtos desses fabricantes.


Eu citei os recalls da indian, assim como poderia ter citado os recalls da harley-davidson...

Imagem e reportagem: http://correio.rac.com.br/_conteudo/2015/07/especial_correio/canal_motor/306564-harley-davison-comunica-recall-das-motocicletas-touring-e-cvo.html

Também foram 7 modelos com problemas na fixação dos alforges laterais — eles podiam se desprender e cair com a moto em movimento.


Ou então o outro recall recente da harley-davidson pelo risco pavoroso de falha completa do freio dianteiro...

Reportagem: http://g1.globo.com/carros/motos/noticia/2014/06/harley-davidson-faz-recall-de-motos-por-problema-no-freio.html

Aliás, para a harley, eu prevejo uma coisa.


Prever não é a palavra, porque não sou bidu nem tenho bola de cristal.


Mas tenho intuição de que a harley irá passar pelos mesmos perrengues de recall de motocicletas que a indian.


E por motivos muito semelhantes.

Este é o novo motor Milwaukee-Eight 114 da h-d
lançado no meio do ano passado:
Imagem, reportagem e vídeo: http://www.motorcycledaily.com/2016/08/harley-makes-new-milwaukee-eight-engines-official-with-video/

Ele está equipando as motos da harley-davidson a partir de alguns modelos 2017 lançados em meados de 201
6.

A grande novidade é o esfriamento líquido por óleo e também água dos cabeçotes dos motores — isso é quase inédito na linha de motores grandes da harley, a única exceção era a V-Rod, um caso à parte.

O projeto do motorzão 114 é inédito em termos de Engenharia:

O motor não mantém a água com aditivo (líquido de arrefecimento) circulando o tempo todo.
Imagem e reportagem: https://ultimatemotorcycling.com/2016/08/25/2017-harley-davidson-milwaukee-eight-motors-11-fast-facts/

A decisão de usar a circulação independente de óleo, água ou ambos — dependendo da situação no momento — será tomada por gerenciamento eletrônico do motor.

Isso permite usar um radiador de água menor do que o tradicional. 

Arrefecimento líquido é uma mudança radical para uma empresa que sempre se orgulhou de manter a tradição de não usar esse recurso.

Na visão dos americanos, a Harley "clássica" é sinônimo de motocicleta.

Arrefecimento líquido é coisa das modernosas e desprezadas (pelos americanos mais xenófobos) motos japonesas de baixa cilindrada. Afinal, eles lutaram contra os japoneses na 2ª guerra.
Imagem: Bōsōzoku, um estilo de customização totalmente oriental. https://br.pinterest.com/ibuki1016/motorcycle/

Humm... ahn... bem... ai, misericórdia... deixa pra lá.


A V-Rod da harley já usava o arrefecimento líquido comum desde 2001, mas foi um motor desenvolvido em parceria com a alemã Porsche.
Imagem e histórico: https://en.wikipedia.org/wiki/Harley-Davidson_VRSC

Ela não é considerada uma "Verdadeira Harley" pelos fãs tradicionais fiéis à marca — justamente por causa da "abominação" da modernidade e do radiador. Afinal, eles lutaram contra os alemães na 2ª guerra.

Os modelos Street 500 e 750 lançados em 2013 também usam radiador, mas são motos desenvolvidas de olho no mercado mundial.

Lá nos EUA as Street 500 e 750 são consideradas "moto de menina". Adolescente.
Imagem e reportagem: http://thekneeslider.com/harley-davidson-liquid-cooled-street-750-and-street-500/

Aquele mercado enxerga Harleys puros-sangues como a Sportster 883 e a Sportster 1200 meras "motos de entrada" ou "motos para iniciantes".
  
Imagem e histórico: https://en.wikipedia.org/wiki/Harley-Davidson_Sportster

As cavalonas tradicionais de motor 1.600 e 1.800 cmque carregam a imagem da empresa passando a usar um radiador seriam rejeitadas pelo forte mercado americano — poderia haver uma migração em massa para a rival secular indian.

Por esse motivo os engenheiros da harley cortaram um doze para conseguir manter a aparência de uma moto tradicional de motor esfriado exclusivamente a ar.

Externamente o novo motor terá a aparência típica de sempre, mas os engenheiros compactaram o projeto para permitir a inclusão de todos os novos recursos e componentes.
Imagem e reportagem: http://www.forbes.com/sites/jasonfogelson/2016/08/28/harley-davidsons-new-milwaukee-eight-engine-debuts-in-2017-touring-motorcycle-lineup/#37db42b2b06e

Sim, a foto é de uma moto já com o novo motor e o radiador e todo o resto ocultos no quadro.


Praticamente fizeram mágica para esconder completamente o radiador, acessórios e mangueiras no quadro das novas motos modelo 2017.

E é bem aí que mora o perigo:


O motor tradicional da harley já mal cabia no chassi.


A troca das velas de ignição já era impossível de se fazer sem a desmontagem da moto — aquele espírito easy rider de resolver as tretas e pipocos no meio da estrada morreu faz tempo.


Para não ser passada para trás pelo motor Thunder Stroke de 111 polegadas cúbicas da indian, a harley aumentou a cilindrada do M
ilwaukee-Eight para 114 pol.3, o que dá 1.868 cm3.
Imagem e reportagem: https://ultimatemotorcycling.com/2016/08/25/2017-harley-davidson-milwaukee-eight-motors-11-fast-facts/

a harley atochou ainda mais coisas no quadro e no motor que a indian, que já teve problemas sérios por causa disso.

Com tanta coisa atulhada nessa moto, eu prevejo que essas motos terão problemas de esfrega-esfrega, roça-roça e superaquecimento de componentes.

Em poucos meses, no máximo dois anos, um recall irá estourar no colo dos proprietários. Na verdade, o que vai estourar fica um pouco mais pra baixo.

Não é zica nem praga nem vidência, é somar 2+2.

Opa, mas parece que nem vou precisar esperar tudo isso não.

Até eu me espanto com a previsibilidade da coisa...

Depois da postagem pronta, encontrei um fórum discutindo os problemas que já estão acontecendo com o novo motor Milwaulkee 8:
Fórum: http://www.hdforums.com/forum/milwaukee-eight-m8/1134021-m8-problems-5.html

Já tem proprietários falando até em motores trocados em garantia e problemas com a bomba e perda de pressão do óleo.

Olha só que coisa...

Tem gente falando que a fábrica está fazendo um "recall branco" (reparo durante as revisões que eles não divulgam nem convocam os proprietários porque supostamente não há risco à segurança) — não divulgam porque pega muito, muito mal:
Fórum: http://www.hdforums.com/forum/engine-mechanical-topics/1134285-milwaukee-8-problems-6.html

O motivo é esse que você leu, cavacos nas galerias de óleo causando perda de pressão, deficiência de lubrificação e superaquecimento.

Motor dando problema com 120 milhas rodadas, menos de 400 200 km. Bah, estou ruim de conta.

Onde foi que vi isso acontecendo?

Ah, lembrei.

Não foi o caso da Kansas não — a Kansas não tinha cavaco, era só falta de óleo mesmo. 

Foi no caso bizarro da postagem de amanhã... 

Como eu havia dito, era natural esperar que esses problemas fossem acontecer.

Quando você força para o infinito e além as coisas que já estão no limite do viável, está jogando fora margens de segurança — alguma coisa será sacrificada.


Há limites que o bom senso manda não ultrapassar.


Mas enfim... eles sabem o que fazem, né?

O tempo dirá se estou certo ou não quanto aos recalls que virão.


Quem quer apostar comigo?

Esse problema de forçar o limite da viabilidade técnica ao menor custo no menor prazo não é só da harley ou indian ou polaris — exemplos não faltam.

Mas como sempre, a postagem ficou mais longa do que o planejado.

Então vou desmembrar o texto em duas (ou três ou quatro) etapas, senão todo mundo vai desistir de ler.

E assim também aumento o suspense.

Um abraço, e até amanhã com um dos casos mais escabrosos da história automotiva,

Jeff

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

O recall da falha mortal dos quadriciclos Ranger da polaris

As motos da indian apresentaram risco de incêndio e foi feito um recall, falamos disso na postagem de terça-feira.

E também foi dito que o projeto das Indian modernas pós 2013 foi feito pela sua nova empresa matriz, a polaris.

A polaris é uma tradicional fabricante de motos de neve (snowmobiles) e quadriciclos.

Antes de adquirir a indian, a polaris já produzia nos EUA as motocicletas Victory, divisão que infelizmente está sendo encerrada agora em janeiro. Na internet um assunto puxa outro.
Imagem: https://en.wikipedia.org/wiki/Victory_Motorcycles

A concorrência interna com as Indian não deu chance às Victory, que nunca conseguiram se firmar na concorrência contra as Harley no mercado americano.

Uma pena, era um belo motorzão, um dos mais bonitos do mercado — e era a marca com o mais alto índice de satisfação de seus proprietários nos EUA.

Certamente o recall feito ainda em 2014 de 122 unidades por problemas no seletor de marchas dos modelos 2015 não ajudou a sustentar a marca.

Coincidentemente, também da polaris há um outro recall por risco de incêndio para os quadriciclos Ranger RZR.
Imagem e reportagem: http://oglobo.globo.com/economia/carros/uma-trilha-radical-com-utv-polaris-rzr-que-parece-um-jipe-das-antigas-13806322

E o motivo fundamental é semelhante, compactação excessiva do projeto mantendo componentes de alta temperatura muito próximos de outras partes do veículo e do sistema de combustível.

Essa é uma condição inerente de veículos compactos, mas as máquinas modernas (de todos os fabricantes) estão ultrapassando limites que não deveriam ser ultrapassados de acordo com as boas práticas de Engenharia.

Para começar, vamos falar um pouco sobre quadriciclos.

Existem dois tipos de quadriciclos:

ATV (All-Terrain Vehicle, veículo todo terreno) quando têm assento único e guidão. Basicamente, uma moto de quatro rodas (abaixo à esquerda).

UTV (Utility Task Vehicle, veículo utilitário para tarefas) quando têm gaiola de proteção, volante e um ou mais pares de assentos com encostos posicionados lado a lado (abaixo ao centro e à direita)Opa, isso pareceu papo anarquista? Abaixo a anarquia!!!
Imagem: http://www.motonauta.com.br/tag/polaris/

ATVs são mais voltados para o lazer, enquanto os UTVs foram concebidos para uso a trabalho no campo / floresta — são muito utilizados por fazendeiros e lenhadores no Canadá, Texas e extremos norte, oeste e noroeste dos EUA.

Alguns modelos do UTV Ranger são praticamente caminhõezinhos 4x4:
Imagem: Pesquisa no google por UTV polaris

Aqui no Brasil os UTVs têm grande potencial para se popularizarem como veículo de trabalho no agronegócio, mas por enquanto são usados principalmente para lazer e competição fora de estrada.

Por coincidência, no dia em que escrevia esta postagem soube que dois brasileiros, Leandro Torres e Lourival Roldan, tinham acabado de ser campeões inéditos do Rali Dakar 2017 com um quadriciclo polaris.
Imagem e reportagem: http://globoesporte.globo.com/motor/noticia/2017/01/dupla-brasileira-surpreende-e-garante-o-primeiro-titulo-do-pais-no-rally-dakar.html

A relação entre indian e polaris é que esta última é a empresa norte-americana que em 2013 comprou, levantou a empresa e reprojetou os motores e motocicletas da tradicional fabricante indian.

Não sei se foram os mesmos engenheiros, mas o resultado final em ambos os projetos foi o mesmo, risco de pegar fogo. 

Pior, mortes por incêndio. Na internet você pesquisa um assunto e descobre outro relacionado.

Devido ao superaquecimento de vários componentes muitos quadriciclos Ranger RZR foram consumidos pelas chamas, e também foi feito um mega recall por parte da polaris.

Pelo menos esse recall foi devidamente noticiado no Brasil:
Imagem e reportagem: http://oglobo.globo.com/economia/defesa-do-consumidor/risco-de-incendio-leva-polaris-convocar-recall-de-veiculos-no-brasil-19422571

Note que no Brasil os quadriciclos não têm qualquer participação da dafra, eles sempre foram comercializados diretamente pela própria polaris.

E como a polaris é uma empresa séria, idônea e respeitável, ela não empurrou o problema para baixo do tapete, e convocou e anunciou publicamente o mega recall. Nos EUA e Canadá o Ministério Público atua com rigor quando tem de atuar com rigor.

Mas a imprensa tupiniquim nunca noticiou os fatos que deram origem ao mega recall:
Imagem e reportagem: Star Tribune
Basicamente, a notícia na seção de Economia diz que a polaris reduziu a previsão de lucros em 43% por conta desse recall e, presumo, futuras indenizações.

Tradução:

Um veículo recreativo fora de estrada Polaris RZR 900 alugado pegou fogo após tombar em julho no Condado de Juab, Utah [EUA]. 

Um dos quatro ocupantes, uma garota de 15 anos, sofreu queimaduras em 65% do corpo e morreu em novembro.

Mais de uma centena de quadriciclos pegou fogo.
Reportagem: http://www.startribune.com/polaris-industries-reduced-earnings-forecast-43-percent-because-of-latest-recall/393120271/

Tradução:


Até abril, mais de 100 veículos Polaris de assentos lado a lado pegaram fogo, um deles matando uma garota de 15 anos. Em 2 de setembro duas mulheres do Arizona morreram em Moab, Utah, depois que o veículo tombou durante um percurso com obstáculos e pegou fogo.

Uma garota de apenas 15 anos e duas mulheres morreram por causa desse pequeno erro de projeto dos engenheiros...


Pois é, todos os recalls por incêndio e possível incêndio 
(não encontrei notícias de motos pegando fogo) envolvendo a polaris e sua divisão indian foram emitidos no segundo semestre do ano passado para produtos recentes da empresa.

Como se explica que várias divisões de uma empresa moderna com produtos modernos recém lançados apresentem tantos problemas graves em projetos tão recentes?

Esse não é um mal que afeta somente a polaris, muito pelo contrário!

As próximas postagens irão relacionar muitos e muitos exemplos de falhas gritantes de projeto ocorridas em lançamentos recentes de praticamente todo mundo.

Que explicação pode ser dada para esse verdadeiro escândalo cada vez mais comum nas montadoras de automóveis, motocicletas e afins?

Chegarei a uma conclusão nas postagens de amanhã e sábado.

Até lá e um abraço,

Jeff

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O outro recall por risco de incêndio e o recall por falha do freio que você também não ficou sabendo

Continuando o assunto de ontem:

Por acaso você já tinha ouvido falar ou lido alguma coisa a respeito daquele recall das indian Chief Classic, Chief Dark Horse, Vintage, Chieftain, Chieftain Dark Horse, Springfield e Roadmaster na imprensa brasileira?

Nem uma palavrinha, né? Palavrinha nenhuma. É, eu costumava dormir nas aulas do professor Pasquale. Culpa dele.


Até a data da publicação desta postagem, não encontrei nem na imprensa, nem no próprio site da indian no Brasil e nem no site do clube de proprietários de motos Indian qualquer informação a respeito desse recall tão importante...

Ué, mas pela lei não é obrigatório convocar recall de segurança da maneira mais ampla e abrangente possível?

É o que diz claramente o Artigo 10º do Código de Defesa do Consumidor:

Código de Defesa do Consumidor, http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8078.htm Clique na figura com o botão direito para abrir ampliado em outra aba.

Resumindo, o responsável pelo produto E TAMBÉM os governantes são obrigados a fazer anúncios publicitários na imprensa, rádio e televisão alertando sobre o problema. Quaquaquá... alguém preocupado em alertar os consumidores... fabricantes e importadores de motos fazendo anúncio no rádio e na televisão para evitar que alguém morra comprando o produto deles... é raro, hein?


Quando uma empresa não faz publicidade de um recall e se limita a contatar apenas os proprietários originais, ela não atinge os proprietários de motos de segunda mão.

Sem informações, eles continuarão a usar um veículo potencialmente mortal na maior inocência.

É por isso que a lei determina o recall público e ostensivo — agir na moita é um desrespeito à lei.

Eles precisariam pagar para anunciar no rádio, tv, jornais e grande mídia na internet, mas nos próprios sites deles mesmos essa divulgação seria gratuita.

Não custaria nada, nada, nada simplesmente cumprir a lei.

E qual é mesmo o nome que se dá para o desrespeito à lei?

Que nome se dá a uma transgressão imputável da lei penal por dolo ou culpa, ação ou omissão?

Não vou dizer, porque se eu falar que o nome disso é crime, vão pensar em me processar.

Mas vão deixar de pensar rapidinho, porque eu digo isso há uns sete anos.

Já apelei ao Ministério Público Federal e até agora o pessoal da empresa responsável pela indian no Brasil não me processou.

Não me processaram porque não estou inventando nada e tudo está definido na Lei nº: 8.078/1990 no Artigo 10º e também no Artigo 64º: 
Imagem: Código de Defesa do Consumidor — Abra em outra aba que aumenta.

Acho que o Código de Defesa do Consumidor define bem o assunto:

Art. 64. Deixar de comunicar à autoridade competente e aos consumidores a nocividade ou periculosidade de produtos cujo conhecimento seja posterior à sua colocação no mercado:

Pena - Detenção de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos e multa.

Só para ficar bem claro, a cadeia prevista na lei não é para mim não, viu? 

É para os responsáveis por não divulgar o recall.

Aliãs...

Você ficou sabendo, ouviu falar, teve qualquer notícia dos outros dois recalls recentes da indian? 
Imagem e reportagem: http://www.moto.com.br/acontece/conteudo/indian-anuncia-recall-envolvendo-18-mil-motos-nos-eua-99033.html

Olha só, outro risco de incêndio, mas por outro motivo.


Engraçado que a reportagem brasileira diz que esse recall só afeta as motos nos EUA, né?


Vai ver que as motos que saem da mesma linha de montagem com o mesmo projeto e as mesmas peças são diferentes das que são enviadas para o Brasil e o mundo... 


Porque conforme a reportagem, o problema não está em um lote de produção, mas na programação da ECU, o módulo de controle do motor — a programação deu problema apenas lá? Difícil, hein?

Ou então vai ver que a nossa gasolina é tão ruinzinha que por aqui não tem perigo de a moto pegar fogo... Vai nessa.

Curiosamente, foi noticiado um terceiro recall que segundo o fabricante não se aplica ao Brasil:

Imagem e reportagem: https://wilsonroque.blogspot.com.br/2015/11/indian-faz-recall-de-7611-motocicletas.html

Noticiado apenas no blog do Wilson Roque e no MOTO.com.br, porque não encontrei nada na grande imprensa.

E um recall também por outro probleminha bobo, o freio traseiro pode falhar totalmente na hora em que você pisa no pedal — uma bobagenzinha, nada pra se preocupar.

Afinal, o que pode dar errado na hora em que você precisa do freio e ele não faz nada?


Diz o autor nos comentários do vídeo que a mulher dele caiu com a moto por falha do freio duas semanas depois de atender ao recall... 

Recall que foi feito lá fora também para as Scout que não estão na lista de modelos publicada no Brasil — pode ser que não tenham sido vendidas aqui, já que a vinda da indian é recente.

O autor do vídeo alega que inspecionaram e disseram que a moto deles não tinha problema e liberaram — e isso lá nos EUA / Canadá, onde recall é levado a sério, hein?


Não sei não, mas me parece que os recalls da indian não tiveram a consideração e a divulgação que mereciam aqui no Brasil.


Principalmente o Artigo 64.

Fico me perguntando o porquê...

A indian faz recall lá fora e todo mundo fica sabendo, e aqui no Brasil ninguém fala nada...

Será que isso tem alguma coisa a ver com a montagem e a comercialização dos produtos da divisão de motocicletas indian no Brasil ter sido feita pela dafra? Ih, falei o nome...
Divulgação: http://www.revistaduasrodas.com.br/site/noticia/visualizar/2085/indian_montara_cinco_modelos_no_brasil_e_planeja_mais

Você não fazia ideia de que as indian são montadas e comercializadas no Brasil pela famosa dafra?

Vai ver que é porque muito pouca gente na grande mídia deu destaque a essa informação.

Na época do lançamento ela apareceu na grande mídia numa frasezinha bem discreta quase no final da notícia, quando todo mundo já não está nem lendo mais.

Ou então noticiada bizarramente de maneira que dava a entender que apenas e unicamente o modelo Scout seria montado pela dafra:
Divulgação: https://carros.uol.com.br/motos/noticias/redacao/2015/10/25/nacional-scout-abre-portas-da-indian-no-brasil-por-r-49990.htm 

A notícia enfatizava a vinda da indian para o Brasil, mas dizia que apenas o modelo Scout seria montado pela dafra.

Por que ninguém disse que todos os modelos seriam montados e comercializados pela dafra?

Engraçado, até parece que alguém não queria que o pessoal soubesse dessa parceria indian-dafra.

Será que era para não queimar a imagem do produto?

Ué, mas porque alguém teria preconceito contra a dafra? 

Afinal, é uma empresa arrojada e criativa com tradição de dez anos no mercado e um histórico bem conhecido...

O fato é que a dafra não está por trás somente da indian — ela representa vários fabricantes mundiais.

Além da indian, ela traz ou trazia para o Brasil as motos da ducati, ktm, aprilia, tvs, zongshen, daelim, lifan, loncin, haojue... esqueci alguém?

Ah, sim. 

A dafra cedia parte das instalações para a bmw montar suas motos — mas em 2016 os alemães investiram em fábrica própria.

Seria o caso de se perguntar:

Será que esses recalls das indian com tão pouco destaque e divulgação têm alguma relação com a conhecida política de recalls da dafra?
Imagem: Lembra do grande recall que a dafra fez para a Kansas? Não lembra? Nem você, nem eu, nem ninguém. Disseram que era mau uso dos proprietários. Hondeiro, yamaheiro, suzukeiro, kawasakeiro não faz mau uso da moto, só os kanseiros.

Porque como todo mundo sabe, a dafra é recordista mundial em convocar recall para problemas em suas motos.

No caso, recorde negativo.

Se você pensou zero, nada, nicles, patavina... passou muito perto.

Encontrei quatro recalls na internet:

Em 2008 para a fixação do garfo dianteiro da Laser 150, outro em 2009 para a Super 100 para o parafuso de fixação do garfo traseiro

E teve um agora em dezembro de 2016 para as recém lançadas ktm devido ao risco de um curto-circuito no sistema de freios que pode derreter o tubo de freio, disseram eles.

Também fiquei sabendo de dois recalls brancos (não divulgados na imprensa, só foi atrás quem foi avisado por eles ou ficou sabendo), um para o rolamento de direção da Next em 2012 e outro para os magnetos do sistema de partida da Maxsym 400i em 2014.

Para trocar parafuso, magneto, rolamento e tubinho de freio a dafra faz recall... 

Mas para resolver o caso das Kansas se partindo ao meio, para começar a colocar a quantidade certa de óleo nos manuais e nas revisões evitando motor estourando na estrada, para isso ela não toma atitude nenhuma... Perguntei a Deus quando eles se emendarão e Ele não soube me dizer.

Será que o caso da falta de divulgação dos recalls das indian é mais uma vez a dafra fugindo de suas responsabilidades?

Isso explicaria esses recalls das indian não terem sido noticiados na imprensa, como manda a lei.

Afinal, a dafra nunca deu bola para detalhes insignificantes como a vida dos usuários de seus produtos.
Imagem e denúncia: http://www.revistamotoclubes.com.br/2011_05/Materia_2011_05_18_Kansas.htmhttp://www.revistamotoclubes.com.br/2011_05/Materia_2011_05_20_CurtaseGrossas.htm

Fico com essa dúvida:

Será que foi feita tão pouca divulgação dos recalls das Indian apenas porque poucas delas foram vendidas e todos os proprietários foram alertados diretamente?

Sem divulgação pública, como os proprietários de motos de segunda mão ficarão sabendo que esse recall existiu?

Eles precisam saber disso para que possam monitorar até mesmo as máquinas que passaram pelo recall a fim de detectar uma eventual recorrência do problema. 

Que garantia há que o recall tenha realmente resolvido e não apenas adiado a falha? 

Terão de aguardar um novo recall que não será anunciado publicamente?

Como fica a obrigatoriedade da divulgação determinada por lei? 

A lei não vale para a dafra?

Eles são melhores que alguém, estão acima do que as outras empresas são obrigadas a fazer?

Tenho o direito de questionar porque nada justifica a dafra se amoitar quanto ao recall das Indian.

Muito menos não fazer o recall das Kansas.

Afinal, a Kansas prova que a dafra nunca fez o recall de motos com problemas tão graves quanto esses das Indian, apesar de ter vendido dezenas de milhares de motos...

A fama da dafra a precede e ela não faz nada para melhorar. 

Fique ligado na segurança de sua moto, seja da marca que for, porque neste país tem fabricante que não está nem aí contigo — para eles, lei de defesa do consumidor é só para constar.

E recorrer às nossas autoridades pode ter resultados muito decepcionantes.

Mas esse assunto dos recalls por problemas graves da indian, polaris e outras empresas não acaba aqui não.

Se você se surpreendeu de saber que tem muita moto recém lançada no mercado com chance de pegar fogo por falha do projeto, acompanhe as próximas postagens.

Vem muita coisa cabeluda por aí de honda, yamaha, suzuki, kawasaki, bmw, harley... tem para todos os gostos.

Amanhã eu volto para falar de outro recall muito sério de outro produto de outra divisão da mesma polaris, os quadriciclos Ranger.

Você pode achar que o assunto não te interessa porque você não tem nem pretende ter um quadriciclo...

Mas te aconselho a ler porque tem muita relação com a postagem de hoje e com as de quinta, sexta e sábado que irão encerrar o assunto e amarrar todas as pontas.

Um abraço,

Jeff